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A mulher hoje



A figura da mulher hoje é diferente de algumas décadas atrás, ela foi modificada e conquistou seu espaço na sociedade, marcando assim um lugar diferenciado nesta. Porém, para a mulher estar nesse lugar tornou-se um grande desafio, tendo em vista que há uma demanda em que avance com toda a sua determinação, como se estivesse atrasada para fazer coisas que ainda não fez e conquistar cada vez mais. Essa demanda não é apenas social. Há também desejo nela em responder a essa pressão que está submetida, pois na atualidade tornou-se sua forma de marcar seu lugar e obter o reconhecimento que antes não era possível.

Encontrou novas maneiras para se apresentar e para isso surgiram inúmeras atividades que a coloca num ritmo intenso e acelerado. Tenta dar conta de tudo, ser tudo para o outro, quer seja no trabalho ou na família, sem deixar de lado o olhar para si mesma. Tenta responder com perfeição às exigências impostas e para isso sua agenda está sempre lotada com uma lista de afazeres que não tem fim. Cada dia tem a sensação que não cumpriu seu dever, que falhou em algo que não sabe o que é. Suas exigências não são apenas no trabalho e na família. É preciso ser e estar linda, ter conhecimento de muitas coisas, afinal precisa saber as técnicas modernas para lidar com seus filhos e como cuidar bem de seu corpo para manter sua juventude e beleza.

Como contribuição aos anseios das mulheres de hoje, a ciência está aí permitindo-lhe que possam ter filhos sem que este desejo lhe seja uma questão a ser interrogada. Basta um doador anônimo para que esse filho seja algo a mais que ela conquistou, sem ter que endereçá-lo a um pai. Hoje, é comum ver mães se ocuparem sozinhas de seus filhos, tornando-se a única referência para a criança, numa tentativa de ser tudo para ela. Assim, a função de humanizar a criança que cabia à família, hoje é a mãe que tenta se ocupar dela.

Cito o filme “Cisne Negro” do cineasta Darren Aronosfky para exemplificar a vida de 2 mulheres, uma mãe e uma filha. A filha (Nina) foi capturada pelos anseios e desejos da mãe que frustrara-se em sua juventude e embaraçou sua vida de bailarina por ter ficado grávida de Nina. Abdica seu desejo de sucesso e de profissional para viver somente em função dela e de lhe dar uma vida que ela não viveu. Ela era uma mãe dedicada, bondosa, porém, rígida, perfeccionista, obsessiva em sua ideia de transformar o seu mal-estar em benefício para a filha. Nina por sua vez, mantinha-se infantil e não conseguia passar de menina a mulher. Seu ideal e objetivo de vida também passou a ser unicamente uma bailarina de sucesso e não admitia outro lugar, impondo-se ser perfeita nessa função. Torna-se, porém, obsecada por perfeição e disciplina, renunciando a tudo que não estivesse relacionado a sua vida profissional.

Ao se deparar com um professor que tenta lhe mostrar que para alcançar o que deseja precisa “aprender a surpreender a si mesma, precisa transcender”, diz ele. E critica sua obsessão e exagerada disciplina. Ensina-a que sua tentativa de controle só lhe atrapalhará e que lhe seria fundamental “se soltar”, convocando-a a se tornar uma mulher. Nessa tentativa, ela tenta mudar de posição e abandonar suas coisas de criança. Nina sentia-se ameaçada por uma suposta concorrente que havia em seu espaço de trabalho, pois percebia que a outra tinha o que lhe faltava: a posição de uma mulher que sabia seduzir, uma outra que descobriu sua sexualidade. Ela se perde na tentativa de manter a perfeição desejada, pois há algo que a barra, impedindo-a de se soltar. Seu corpo é marcado pela dor que ela mesma produzia para punir-se. Segue um caminho que sua atuação como bailarina é formidável e absolutamente perfeita aos olhos de todos, mas impossível de suportar.


Ser e tornar-se mulher hoje:

Para Freud (1931, p. 262 e 264) em seu texto Sexualidade Feminina a menina se torna uma mulher; há uma passagem, de menina a mulher. Ao analisar as mulheres em sua clínica percebeu que a ligação que estabelecia com o pai, dependia de uma forte ligação da menina com sua mãe. Portanto essa forte ligação com a mãe é fundamental para seu percurso de torna-se uma mulher, pois é esta que lhe transmite os primeiros sinais de feminilidade, ou seja, a mãe será a primeira pessoa que lhe ensinará o que é ser uma mulher.

Nessa reflexão chamo atenção para o fato de que há importância na figura materna e paterna para o surgimento da feminilidade. E como é necessário à mulher reconhecer suas impossibilidades e limites diante da vida, podendo assim realizar muitas coisas em nossos dias de uma forma mais leve e criativa, tendo outras pessoas participando de suas conquistas.

Será que a mulher de hoje pode abrir mão de ocupar esse lugar onde tudo lhe é possível para viver o desafio de ter satisfação no que pode ser possível? E será que ela poderá reconhecer suas limitações, buscar o outro como aliado e ao receber contribuição destes outros em sua vida, ainda assim poderá ser uma mulher admirada e reconhecida em nossa sociedade?


Bibliografia: 1.FREUD, SIGMUND (1931). “Sexualidade Feminina”. Vol. XXI, ESB das obras completas, Imago Editora, RJ.


#mulher + saude


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