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Os ciclos da vida


Toda etapa da vida tem seus encantos e limites. Mas, parece que nosso olhar se volta, quase sempre, para os conflitos e desafios que a vida nos impõe. Deixamos de desfrutar e valorizar o que é maravilhoso em cada etapa e, repetidamente, insistimos em admirar o que passou ou o que virá.

No processo de desenvolvimento humano é natural o desejo por novas fases, o interesse por independência, o movimento por novos relacionamentos além do núcleo familiar. É natural a saudade do colo dos pais, da infância perdida, das aventuras da juventude, dos amigos que seguiram outros caminhos e tantas outras vivências que se foram. O desenvolvimento humano é um processo de muitas mudanças, pois a vida é dinâmica. Essas etapas, porém, são vividas por cada pessoa dentro do seu ciclo de vida individual e coletivo. Embora estas tenham uma divisão, podem se misturar ou ser diferentes no aspecto cronológico de cada um.

Ao nascer, o ser humano é acolhido e amparado. Desfruta do prazer de ser cuidado e é protegido por alguém. Mesmo sem ter consciência deste prazer e dependência a que está submetido, o bebê logo faz movimentos em busca de autonomia. Logo no início deseja superar suas limitações. Ao obter consciência de seu eu, cria fantasias e desejo de crescer e ser como aquele adulto que convive.

A adolescência é marcada por muitas transformações inesperadas. Um novo corpo surge, uma nova voz e diversos incômodos que trazem inquietações, incertezas. Desejam formar novos vínculos com os seus grupos. Muitos se sentem inseguros e incapazes de realizações, indecisos acerca de suas escolhas. Sua referência é o adulto que vê e aqueles que são admirados por seu grupo; tende a desprezar os que são de sua intimidade e a supervalorizar e imitar aos adultos que seus amigos admiram. Desejam liberdade e vivenciar novas experiências e desfrutar das inúmeras possibilidades que não tem como adolescente. Nessa fase, não presta muita atenção em valorizar sua curiosidade ou admirar seu tempo. Não vê motivação para valorizar seu corpo que, ao seu olhar, sempre tem um problema e não tem muito pelo que admirá-lo. Espera avançar em busca de novas fronteiras, novas relações e fantasias.

O jovem adulto, no entanto, já experimentou novas vivências. Sabe que precisa se adaptar à nova realidade, que o mundo não é tão colorido como achava ser, que pode sofrer desilusões e sabe que seus pensamentos não são mágicos. Aprendeu um pouco que não pode realizar tantas coisas como achava possível. Mas ainda, preocupa-se em vivenciar o que criou em sua imaginação na infância e adolescência. O jovem adulto também vive na incerteza do amanhã e se preocupa com sua vida profissional e amorosa. Apesar de valorizar o corpo, também não dá muita importância para sua beleza física, seu vigor, ânimo e saúde.

O adulto espera por coisas que planejou, mas já se torna mais consciente dos limites e dificuldades da vida. Atenta para o início de um declínio de sua força e vigor físico e começa a se preocupar com as pequenas rugas que surgem, com as pequenas mudanças físicas e dificuldades que sofreu em algumas relações. Não valoriza tanto a liberdade que adquiriu ou a possível segurança financeira, a realização profissional quando conquistada ou a família construída. Neste momento, o que passou começa a ter um olhar especial. Sente saudade das experiências. E sua busca agora é tentar recuperar suas perdas, retardar o envelhecimento, ter saúde. Esforça-se para ter o corpo que perdeu e a liberdade dos tempos da juventude que tão depressa lhe escapou. A maturidade, segurança, conquistas, equilíbrio e sabedoria que adquiriu com suas experiências não são observados como algo de tanta importância.

A etapa de envelhecimento é considerada por nossa cultura como a mais difícil e é quase impossível ver o que se pode ter de bom nessa fase da vida. Os limites que o corpo apresenta, tais como, a falta de vigor, as perdas e separações de pessoas queridas que trazem ao psicológico de alguns idosos o interesse por isolar-se ou deprimir-se. Nesse momento, a vida pode ficar ainda mais pesada se não valoriza suas pequenas e grandes conquistas; se não supera a insegurança a fim de transmitir às novas gerações o seu saber. O que quase sempre o idoso não sabe é que, seu mais valioso tesouro está guardado em seu íntimo, em suas histórias. E apesar do tímido movimento que apresentam alguns idosos atualmente, seu olhar está para o passado que viveu e para as perdas que sofreu. Provavelmente, pensar no passado e a falta de perspectivas para o futuro são os motivos da tristeza que vemos em seu olhar.

Todas as etapas da vida têm suas limitações, mas também tem beleza e prazer. Viver cada momento com a satisfação que a vida proporciona é um grande segredo para uma vida saudável, mesmo com a consciência dos limites e dificuldades. Apesar do desprazer e da dor presentes em alguns momentos e em todas as etapas, na vida sempre há o que apreciar.

Em que etapa você está? Qual é o encanto de sua vida hoje? O que pode valorizar em você? Qual a realização e satisfação de hoje?

Ser capaz de valorizar e curtir as etapas podem ser um desafio, mas não é impossível. Se atentarmos nas conquistas, realizações de cada fase e para a pessoa que somos ao invés de lamentarmos pelo que não temos ou ao que perdemos certamente aproveitaremos melhor a vida.

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